quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Experiência, Sabedoria e Cansaço - Para Karine

Nesses últimos tempos, quando sinto de forma mais acentuada o chamado peso dos anos e por isso, quiçá, tenho pensado muito na juventude, no que ela significa ou significou para mim. Talvez pela certeza de que a morte se aproxima, e se aproxima rápido, essa figura fagueira – nem sempre valorizada em seu devido tempo, mas muito idealizada depois que a perdemos – não me abandona nessa fase outonal de minha vida. Um psicólogo amador diria que penso nela, a morte, com certa constância morbígena. É possível até que alguns amigos diletos pensem dessa forma. Um psicólogo amador, e cruel, desses que exercem sua sapiência nos bares de todas as cidades, di-lo-á que no fundo, no fundo, ao falar da morte com tanta constância faço-o como uma maneira sutil de mendigar compaixão, essa forma calhorda de desejar compartir com outrens seus supostos sofrimentos. Ou seja, um jeito lamentável de desejar que sintam piedade por nos mesmos. Não chego a discordar completamente. Mas isso não vem ao caso, pelo menos não o vem neste preciso momento.


O que me interessa agora, nesse instante, é que, ao pensar na morte, fatalmente lembro-me da juventude perdida. Lembro-me das travessuras de criança, das brincadeiras de picula, boca de forno, chicotinho queimado. As primeiras fugidas de arco protetor da saia da mãe, as escapadas que iam abrangendo um círculo cada vez mais amplo – fugas fatais que nos leva a perder-nos no mundo –, até que nos vemos no âmbito de outros mundos, outras realidades. Lembro-me, particularmente, dos primeiros amores – lembrando-me das situações vividas, sem, contudo, chegar a lembrar-me, na maioria das vezes, das pessoas com quem as vivi. Nessas experiências estão fatalmente as primeiras descobertas relacionadas ao sexo. E, ao lembrar-me, chego a sentir no sangue aguado do velho que sou hoje o calor abrasador com que aquelas sensações percorriam as veias do jovem que fui, e bendigo o colesterol acumulado nas veias que não permite nenhuma aceleração mais perigosa da pulsação que poderia levar-me a um fatal – e não desejado – desenlace...

Ah!... As mulheres que amei... Como descobri a satisfação de fazê-las sofrer, em particular por minhas infidelidades. Como vivia aqueles momentos ofegantes, sentindo as palpitações resultantes das mentiras mal contadas, o remorso em provocar lágrimas de ciúmes em quem não merecia, mas que eu não podia evitar. Não foi por casualidade que o poeta popular cantou: “O amor só é bom se doer...” Principalmente quando dói nos outros.

Nada – isso penso hoje, no ocaso de vida – é mais grandioso, mais emocionante do que o amor vivido na juventude. Conquistar uma mulher, dizer-lhe “coisas bonitas”, vendo no seu semblante, também jovem, o impacto que aquelas “belas palavras” causavam. Você sabendo que tudo aquilo não passava de armadilhas, que não passava de frases vãs cujo objetivo único era a conquista e, com ela, a posse. Ela, a mulher que ouvia, sabendo o mesmo, só que desejando ardentemente que aquelas mentiras não o fossem... E se para você aqueles ardis significavam a confirmação da razão de ser de sua própria masculinidade; para ela, que te ouvia inebriada, acreditar em tudo de elogioso que você dizia era o nirvana da sua condição feminina.

C’est la vie, diria um conformista cínico, que gosta de citar expressões estrangeiras. E não deixará de ter razão. É possível até que o faça na ilusão de exibir conhecimentos que não possui, coisa que muitas vezes, na juventude, todos nos fazemos.

Quando um homem busca conquistar uma mulher – isso sei hoje –, não há muita variação do vocabulário, através dos tempos naquilo que se diz, o que é sempre diferente são os ouvidos – da possível conquistada – que ouve, ou talvez seja tão-somente a emoção a percorrer o sangue, provocado pelo milagre da audição ensaiando uma taquicardia dupla, isso é, dupla porque se realiza em duas pessoas: na que diz e na que ouve. Não descarto também que todas as palavras de amor, todos os ardis da conquista, sejam sempre as mesmas, apenas ditas por bocas diferentes e ouvidas por novos e inexperientes ouvidos, ávidos em acreditar nos engodos, nas astúcias, nas artimanhas. Em última instância, desejando que a ilusão e o sonho sejam a realidade.

Não quero dizer com isso que o amor seja um engano, as suas juras é que as são, em particular as de eternidade, do tipo: Nunca conheci uma mulher como você. Nunca uma mulher me impressionou tanto como você. Quantos milhões de vezes através dos séculos essa frase não já foi dita? Ademais, como seria possível se conhecer duas pessoas iguais? Na última frase está implícita a força dominante dos hormônios desejando extravasar.

E, no entanto, a todas essas conclusões chega-se com experiência – essa forma cruel de desengano –, quando já não se tem possibilidades de sonhar, de iludir-se com a mentira que o amor, ao dizê-lo torna a vida encantadora.

Fernando Pessoa disse: “Vivi, estudei, amei, e até cri,/ E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu./ Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira, E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses/ (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);/ Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo/ E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.”

É, porém, na experiência que reside a fonte da sabedoria. E, por essa via, só posso chegar a conclusão que saber é igual a decepcionar-se. E decepcionar-se de forma inexorável, irremediável, completamente. E ao descobrir que saber representa algo tão cruel como a decepção, invejo o tempo em que era ignorante e, por tanto, pensava que era feliz.

Meditando sobre tudo isso sinto cansaço, corolário natural de quem viveu muito – quiçá demasiado –, adquiriu sabedoria justamente com a experiência de vida, para finalmente sentir cansaço e prostrar-se inerte, em uma tarde de verão, pensando na morte e lembrando-se da juventude perdida, enquanto sente a umidade da tristeza escorrer-lhe pelas faces envelhecidas.





Araken Vaz Galvão

Valença, BA, 21 de dezembro de 2010



3 comentários:

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  2. Ah, sim, a morte... O que não tem solução, resolvido está. 'Vamos embora, ver onde chora o cantor', 'que esperar (a morte) não é saber'. Quem sabe faz a vida, que sim pode acontecer.

    Esta ideia, esta imagem que expresso é, para mim, a que mostra bem quem é meu amigo Araken Athos Vaz Galvão Sampaio, Capitão Conselheiro em Praia e Sertão, Escritor Baiano, Cidadão Brasileiro, Valenciano.

    Dartan'Jean

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  3. PS - "Vamos embora, ver onde chora o cantor" é verso da música Bailanta do Tio Flor, de Elton Saldanha nos bons tempos da minha juventude. O significado do verso, para mim, é que o canto do cantor, diante da alegria do que convida, chega a parecer choro.

    Para ouvir e ver: http://www.youtube.com/watch?v=pK3oxFjJP9A

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